Mais um Domingo

Há dias em que nos levantamos com a sensação de que o mundo lá fora não nos quer ver. Mal pomos os pés fora da cama, sentimos um forte arrepio que nos impele a voltar para os lençóis de novo. Não encontramos nada de interessante para fazer, falta-nos a imaginação, domina-nos uma enorme incapacidade para inventar, sentimo-nos inúteis, esvaziados, não apetece tirar o pijama. Ligamos a televisão. Pior! É pouco animador o que se vê. Passam duas, três horas neste estado desatinado. O tempo brumado também não ajuda muito. E que tal um cafezinho naquele café com um bolo de chocolate tentador? Não. O pequeno almoço tempera um pouco este destempero. Quase meio da tarde e arrastamo-nos neste enrolamento. Ah! Um banho morno, um creme amaciador no cabelo, uma vela perfumada, um livro ou um pouco de música. Finalmente, vestimos umas calças de ganga e lá decidimos ir tomar um café. Casualmente encontramos um antigo colega. - Está tudo bem? – pergunta sacramental. Ele abana a cabeça num gesto que identificamos como “assim, assim”. - Isso quer dizer? – vá lá não nos passou despercebido. - É a mulher – disse ele, contando de seguida que lhe tinha sido detectado um cancro numa mama, depois na outra e, mais recentemente, nos ossos. Sessões de quimioterapia, radioterapia, corridas para os hospitais. - E ela como tem reagido psicologicamente? O apoio? – perguntei - Tem o marido – respondeu-me ele com um sorriso nos lábios, um olhar brilhante e um gesto de mãos abertas. Bom, os meus olhos também brilharam de emoção. Era muito forte aquilo que acabava de ver. Depois de mais algumas palavras trocadas como fecho de conversa, eu tive que lhe dizer como foi bonito ver aquilo que vi.

Que estúpida era se deixasse o Domingo fechar-me em casa.

publicado por portosolidao@sapo.pt às 20:55 link do post | comentar | favorito