A Dor da Comparação

 

Já lá vai muito tempo quando deparei com um texto do filósofo Kierkegaard, cujo conteúdo deixou marca, no qual observava que o início da infelicidade humana se encontra na comparação.

Bem cedo, experimentei isso na minha própria pele. Foi quando eu, menina de uma aldeia beirã, vim estudar para o liceu feminino em Coimbra, que conheci a infelicidade. Comparei-me com as meninas que aí estudavam: bem vestidas, bonitas, espertas, bem falantes, ricas, filhas de gente importante. Eu diferente, mal vestida, gorda, feia, pobre, gaguejando de vergonha, pois até o meu sotaque denunciava a minha origem; entre elas, eu não passava de um patinho feio que elas (achava eu) se divertiam em bicar. Nunca fui convidada a ir a casa de qualquer uma delas. Nunca convidei nenhuma delas a ir ao meu quarto. Também não me atreveria, pois o meu quarto (ainda por cima compartilhado) era pequeno, inóspito, impessoal, em nada semelhante aos quartos delas (achava eu). Conheci, então, a solidão. A solidão de ser diferente. E sofri muito. E nem sequer me atrevi a compartilhar com a família esse meu sofrimento. Seria inútil. Ninguém compreenderia. E mesmo que compreendessem, nada podiam fazer. Assim, tive de sofrer a minha solidão duas vezes sozinha. Mas foi nela que se formou aquela que hoje sou. As caminhadas pelo deserto fizeram-me forte. Aprendi a cuidar de mim mesma. E aprendi a procurar as coisas que, para mim, solitária, faziam sentido. Como, por exemplo, a leitura, a música, belezas que dão um tom de alegria à minha solidão... 


A infelicidade com a solidão: não deriva ela, em parte, das comparações? Não comparamos vivências nossas, sós, na casa vazia, com cenas (fantasiadas) dos outros, em celebrações cheias de risos...? Esta comparação é destrutiva porque nasce do não real. Soframos a dor real da solidão porque a solidão dói. Dói uma dor da qual também pode nascer a beleza. Mas não soframos a dor da comparação. Ela não é verdadeira.

publicado por portosolidao@sapo.pt às 04:02 link do post | favorito