Dez réis de esperança

Se a crueldade perece estar na ordem do dia, faço um apelo à esperança que, me parece, deve estar sempre presente no nosso quotidiano, ainda que, em alguns dias ou momentos, seja apenas uma réstia viva... de que nos fala este nosso poeta.

 

Se não fosse esta certeza

que nem sei de onde me vem,

não comia, nem bebia,

nem falava com ninguém.

Acocorava-me a um canto,

no mais escuro que houvesse,

punha os joelhos à boca

e viesse o que viesse.

Não fossem os olhos grandes

do ingénuo adolescente,

a chuva das penas brancas

a cair impertinente,

aquele incógnito rosto,

pintado em tons de aguarela,

que sonha no frio encosto

da vidraça da janela,

não fosse a imensa piedade

dos homens que não cresceram,

que ouviram, viram, ouviram,

viram, e não perceberam,

essas máscaras selectas,

antologia do espanto,

flores sem caule flutuando

no pranto do desencanto,

se não fosse a fome e a sede

dessa humanidade exangue,

roía as unhas e os dedos

até os fazer em sangue.

                                António Gedeão

publicado por portosolidao@sapo.pt às 03:09 link do post | comentar | favorito