Quem é cruel com quem?

Muitos fazem a pergunta que o “Anónimo” colocou no último comentário. Por isso, seria interessante ouvir mais opiniões sobre este assunto. Eu penso, que, apesar de ter muito de verdadeiro a pergunta “Será que só damos valor às coisas quando as perdemos?”, seria importante saber quais as razões ou as causas desta realidade. Porque se não formos às causas e nos ficarmos pela verificação pura e simples da realidade “visível”, teremos de concordar com o nosso amigo Anónimo quando desabafa: “Será que o nosso processo de aprendizagem tem de ser assim tão cruel?” Gostaria de deixar duas razões para debatermos.

 

A primeira está relacionada com o modo como olhamos os outros. Temos dificuldade em vê-los como companheiros de viagem, de quem precisamos mas também eles precisam de nós: a vida é uma caminhada ou se quisermos uma peregrinação à antiga. Saímos de casa, mas como não sabemos bem o caminho a seguir, temos de acreditar em quem já o fez em anos anteriores. Não sabemos o que nos espera “ao virar da esquina” nem onde pernoitaremos, nem sequer se haverá uma “alma caridosa” que nos dê uma sopa quando se acabar o farnel que levámos de casa. Só sabemos que se tivermos algum problema os que vão a peregrinar connosco nos ajudarão, quanto mais não seja porque também eles poderão necessitar da nossa ajuda numa outra qualquer ocasião. Devo dizer que gosto muito de olhar a vida como uma peregrinação. Porque exige fé e confiança nos outros e obriga os outros a terem fé e confiança em nós

 

Uma segunda razão tem a ver com o facto de sermos individualistas e egoístas e, portanto, nos esquecermos, com facilidade, de que fazemos parte de uma mesma comunidade, onde todos e cada um tem obrigação de dar o seu contributo, que é “único e irrepetível” como o são as suas impressões digitais ou o seu DNA. Se eu desisto de pôr os meus dons e talentos ao serviço dos outros, começo não por ficar abandonado pelos outros, mas por ser eu a abandoná-los a eles. E de repente reparo que os papéis se inverteram: agora o abandonado sou eu. E o mais grave é que não dou por isso; acontece-me inconscientemente. E depois, perdido dos outros no meio de um caminho desconhecido, sinto a falta que esses outros me fazem. Então penso que me fizeram uma crueldade abandonando-me. Mas não percebo que a crueldade foi minha, pois quem abandonou fui eu e não os outros. Certamente não fui claro com este palavreado todo.

 

Mas, resumindo, a pergunta que fica é esta: Quem é cruel para quem?

publicado por portosolidao@sapo.pt às 11:50 link do post | comentar | favorito