Cuidar do Outro

Fui lendo e meditando nos vários comentários ao último texto e tirei algumas (minhas) conclusões.

 

Por detrás de alguns, parecia haver um certo fatalismo; porque talvez não fôssemos “educados” para ser agentes da história, porque não acreditamos que o futuro depende de nós: o futuro não existe; o futuro constrói-se, no dia a dia, com o contributo de todos e será tanto melhor quanto melhor for o contributo de todos e de cada um.

 

Presente estava também algum desânimo, certamente porque não vemos resultados do nosso trabalho nem do dos outros, porque acreditamos na velha falácia de que o mundo está cada vez pior: a falta que nos faz poder voltar cem anos atrás e (re)vermos as condições de então!

 

Alguns querem afastar as pessoas, refugiar-se na sua solidão, esquecendo um coisa tão simples que nunca pensamos nela: o coração só se pode abrir por dentro. De pouco ou nada vale a ajuda dos outros se eu não quero ser ajudado, se eu não quero abrir o meu coração; porque só eu tenho a chave para o abrir. Os outros terão de esperar, com paciência e amor, à “porta” para poderem entrar. Há ainda o perigo corrosivo da vitimização.

 

Há ainda o perigo corrosivo da vitimização. Parece que só a mim é que acontecem estas coisas. Esquecemos que há outros que estão pior que nós. É certo que, como diz o ditado popular, “com o mal dos outros posso eu bem”. Mas saber que não sou o único, que outros. em iguais condições, foram capazes de superar a sua dor, certamente que pode ser um estímulo para eu fazer o mesmo. Pelo menos, pode ajudar a desdramatizar a minha situação concreta e ajudar a colocá-la no nível das coisas “normais” de que a nossa vida que é feita: de altos e baixos, de vitórias e fracassos, de alegrias e tristezas.

 

Ficam duas questões que foram colocadas sobre esta nossa sociedade.

“A sociedade é, sem dúvida, o maior buraco negro do Universo”. Será mesmo? Tenho de discordar absolutamente, porque sem sociedade nenhum de nós conseguiria viver: pode algum de nós sozinho cozer o pão, pescar o peixe, criar as vacas, inventar a televisão ou o computador, etc., etc., etc.?

 

“O que podemos fazer?” Parece-me que mais difícil é se “queremos fazer”, porque certamente há muito que podemos fazer. Falta-nos é imaginação e compromisso sério com o bem de todos. Deixo duas ideias que retirei de João Paulo II, que insistia muito em estar em comunhão, em sintonia, uns com os outros, o que ele chamava a “espiritualidade da comunhão”.

E o que é “isso”?

- é sentir o outro como «alguém que faz parte de mim» para saber partilhar as suas alegrias e os seus sofrimentos, para intuir os seus anseios e dar remédio às suas necessidades, para lhe oferecer uma verda¬deira e profunda amizade;

- é ver, antes de mais nada, o que há de positivo no outro, para o acolher e valorizar como dom: um «dom para mim», como o é para o irmão que directamente o recebeu;

- é saber “criar espaço” para o irmão, levando «os fardos uns dos outros» e rejeitando as tentações egoístas que sempre nos ameaçam e geram competição, arrivismo, suspeitas, ciúmes.

 

Concluiria eu assim: é viver, não segundo a lógica da competição, da inveja, do ciúme, mas segundo a lógica do dom, da gratuidade e da fraternidade. Só isto!!! Tão pouco (parece, assim escrito), mas tão difícil (é, quando vivido). A todos os que estão sós, ficam, apesar de anónimo, o meu carinho e a minha solidariedade

publicado por portosolidao@sapo.pt às 12:22 link do post | comentar | favorito