não consigo estar só

É noite. Noite estrelada. As luzes da cidade ofuscam as estrelas. Longínquas. Próximas. Grandes. Pequenas. Brilhantes. Invisíveis. Lá fora, fora da janela e fora da Terra, há milhões de mundos.  Quantos já terão desaparecido sem nunca terem sentido o calor da vida, alimentados por um calor "frio" sem sentimentos das reacções que as tornam brilhantes? Quantos estarão a formar-se?.Quantos deles sentirão o calor da vida no frio gélido do espaço cósmico?

Pouco importará a cada um de nós como indivíduo ter uma resposta para estas questões que preocupam astrónomos, exobiologistas e, dizem, até teólogos.

Mas olhar o céu é qualquer coisa que nos esmage e nos entusiasma.

Mas o que mais me impressiona é saber que os tecidos do meu corpo, o meu coração, os meus pulmões, o meu cérebro, tudo isso é formado por átomos e moléculas que se formaram nessas estrelas longínquas e no espaço que as separa. Eu não nasci há umas dezenas de anos. Eu sou feito a partir da poeira cósmica que foi surgindo, crescendo, desaprecendo para dar origem a outras estrelas e a outras poeiras. Eu sou filho desses átomos que vêm do início do Universo. Como posso sentir-me sozinho neste meio de que sou feito, destas estrelas e de planetas que não vejo mas são fisicamente meus irmãos?

Mas há mais: eu sou feito exactamente dos mesmos átomos e moléculas que as pessoas com quem me cruzo na rua: respiro as moléculas que elas expiraram e que vão entrar na composição do meu corpo. Eu sou quimicamente irmaã de todos aqueles com quem me cruzo ou que até nem conheço, mas que me foram trazidos pelo vento. Como poderei sentir-me só, se somos muitos os que nos damos, que nos partilhamos no respirar, no comer de cada dia. Como posso sentir-me só?

E avançando mais. Quantos livros eu li de pesoas que nunca vi, mas que me enriqueceram e me fizeram melhor? Quantas músicas de autores que não conheço me alegram e me fazem chorar com os acordes que vibraram na minha alma. Não são eles tabém meus irmãos espirituaisd?

Com uma família tão grande que envolve estrelas longínquas, planetas invisíveis, o ar que respiro, os livros que leio, as músicas que ouço, como posso sentir-me só?

 

Só poderei estar só e sentir-me só se me fechar a todos estes amigos conhecidos e desconhecdios. Esquecer tudo isto exige um esforço bem maior do que manter-me e sentir-me só!!!

publicado por portosolidao@sapo.pt às 00:48 link do post | comentar | favorito